
Um dos primeiros temas que gostaria de falar, é a poesia. Não a tradicionalmente conhecida com suas diversas classificações, mas sim a inclassificável. A poesia de Augusto dos Anjos é por assim dizer incomparável, inconfundível.
Esse paraibano, nascido em 1884, compôs o seu primeiro poema aos 7 anos, e este certamente não foi tão crítico como os ele costumou escrever durante toda a sua vida, que foi tomada pela arte, arte pura. A complexidade de suas poesias não as torna incompreensíveis, pelo contrário, é esta complexidade que caracteriza sua obra. É complexa porque é cheia de vida.
Os temas nefastos e mórbidos não representam o desgosto pela vida, e sim a sua revolta de viver da forma que se vive.
Uma das poesias que mais gosto do Augusto dos Anjos, é sem dúvidas, Vencedor:
Vencedor
Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E á rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração — estranho carniceiro!
Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
Nenhum pode domar o prisioneiro.
Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois de um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,
Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem...
E não pude domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta!
Mas certamente um dos mais conhecidos seja Versos Íntimos, desculpem os que sabem, mas muitos nem sabem que este é de Augusto dos Anjos.
Versos íntimosVês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera
-Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te a lama que te espera!
O Homem que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera
Toma um fósforo, acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro.
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa ainda pena a tua chaga
Apedreja essa mão vil que te afaga.
Escarra nessa boca de que beija!
Bom, fica aqui a chama acesa para a pesquisa sobre Augusto dos Anjos, gostaria de encerrar com um poema que escrevi em homenagem a este incomensurável poeta.
A morte do poetaHoje o mundo chora,
Morre aquele poeta.
Homem esse que outrora,
Tivera sua vida mais completa.
Interrompida naquele momento,
Trazendo a outros, grande sofrimento.
Momento de ápice, o tal
Que atingira seu ideal.
E todo e qualquer vestígio
É imortalizado por seu prestígio.
Que recolhera em toda sua andança.
Onde fizera toda aquela lambança,
Mascarada pelo devaneio,
Que atingira qualquer meio.
Sua boa poesia
Atinge com demasia,
A toda a massa do mundo.
Atinge até o recôndito mais profundo.
A mente dos idiotas,
Às escleroses das velhotas.
Senhoras e senhores,
Às crianças ocasiona horrores.
É o mundo perfeito
Na ponta da caneta.
É o filho imperfeito
Nascido de proveta.
É o cigarro acendido
Aos prantos.
É o beijo dos arcanjos,
Abrindo encantos.
É o mundo sofrido
De Augusto dos Anjos.
Marcos Fernandes